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terça-feira, 8 de abril de 2008

Assino em baixo

Sobre a Lei Pelé Juca Kfouri, em um artigo perfeito, escreveu assim na Folha de São Paulo:

A LEI PELÉ está completando dez anos e uma coisa é indiscutível: a cartolagem ganhou a guerra da propaganda para convencer a opinião pública de que é maléfica.

Até gente boa repete o discurso escapista dos cartolas. Gente boa, capaz, mas nem sempre bem informada. Porque de tanto ouvir o discurso da cartolagem continua a ignorar que as transações de nosso futebol com o exterior seriam exatamente como são hoje por causa de outra lei, chamada de Bosman, que passou a vigorar em 1995 na Europa e fez a Fifa se curvar.

E de 1995 para cá, lá se vão 13 anos, não apenas dez. Se quiser uma prova, pesquise como foi a transferência de Ronaldinho Gaúcho do Grêmio para o futebol francês, quando aqui ainda não vigorava a Lei Pelé e lá já vigorava a dita Lei Bosman.

Mas é inegável que os cartolas ganharam no discurso.

Não só porque o próprio Pelé andou envergonhado de defender a lei que leva seu nome, depois de que foi estuprada por Maguito Vilela em sua regulamentação, como, também, porque jamais ele a entendeu bem, dada a superficialidade que o caracteriza.

Aliás, mais grave que se aproveitar de sua lei no projeto em Jundiaí é fazer parte da comissão da Copa de 2014 sem exigir, como prometera, que brasileiros de alta respeitabilidade dela façam parte.

Num país em que jogadores da seleção brasileira de futebol desconhecem quem foram seus antecessores 50 anos atrás, não espanta que, perdão pela repetição, gente boa se engane com o discurso dos cartolas e não veja que

Bosman não afundou o futebol europeu, assim como Pelé não afundaria o brasileiro caso, de fato, a lei fosse implantada com tudo de modernizador que traz, como a possibilidade, que deveria ser obrigatoriedade, do futebol-empresa, por exemplo.

Porque o mesmo cartola que reclama do empresário (alguém que o jogador escolhe, o que é diferente de ser compulsoriamente propriedade de um clube como antes, e, convenhamos, o livre-arbítrio ainda deve valer mais que a palavra dos cartolas) é aquele que se associa a ele, por baixo do pano.

A ponto de recentemente uma negociação ter gorado entre dois gigantes de nosso futebol porque o presidente de um pediu R$ 150 mil em sua conta para autorizar a transação, o diretor de futebol do outro pegou o dinheiro em seu clube e simplesmente não o depositou, para ficar com ele. Depois, argumentou que depositou, mas levou cano.

Porque é assim que funciona e é por coisas como essas que nossos clubes estão como estão, apesar de um caso como o acima não poder ser contado com nomes, pois impossível de provar. Só que a culpa não é da Lei Pelé, sem prejuízo das correções que nela caibam.

Em resumo, tudo é fruto da miséria nacional, aí entendida como a desonestidade, intelectual, inclusive, de nossos cartolas e políticos, aliada à desorganização dos atletas, que se comportam como gado de corte ou bobos da corte.

Corte e corte, melhor seria com circunflexo, chapeuzinho, quase em desuso, mas jamais cartola.
Por Juca Kfouri
Folha de S. Paulo, 30/03/2008

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