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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A hora do Dragão

O que parecia impossível aconteceu.

O Atlético está com a faca e o queijo nas mãos para continuar na Série B.

É só ganhar, se livrar do pior e repensar o futuro.

Lugar de torcedor do Atlético, sábado, 16:20, será o Serra Dourada.

Só um motivo muito forte para justificar a ausência de algum atleticano.

Sobre a torcida, segue abaixo, um texto elaborado pelo torcedor rubro-negro Paulo Winicius Teixeira de Paula, mestrando em História (UFG).

Lembrando, que não vi desrespeito nas palavras o presidente, a citação pode ter sido sim desnecessária.

A colocação serve de reflexão, pois jogo do Atlético virou sinônimo de arquibancadas vazias. Reflexão principalmente para os dirigentes reverem o distanciamento que tiveram da torcida nos últimos anos. Sempre digo que o princípio de administração de um time de futebol deve se voltar primeiramente ao torcedor. Se o futebol for feito pensando no seu público é meio caminho andado. Isso se refere não só a política de preços de ingressos mas também a um trabalho que dê confiança ao público que vale a pena ir para o estádio. Historicamente o torcedor rubro-negro sempre apoiou o time quando se havia um mínimo de identidade com os jogadores. Porém, nos últimos anos, o Dragão virou um time como os de empresários, com alta rotatividade de jogadores e técnicos.

Mas o destino coloca mais uma oportunidade de ressurgimento do Atlético Goianiense e o time, com jogadores tão massacrado na boca dos seus dirigentes, terá o apoio em massa dos seus torcedores, tão ignorados pelos mandatários do clube.

Segue o texto de autoria de Paulo Winicius Teixeira de Paula:

“Respeite as cores, dr. João”
“Porque Narciso acha feio o que não é espelho”
Caetano Veloso
O presidente do Goiás, João Bosco Luz, na semana passada após o jogo contra a Ponte Preta reclamou do público de 7.103 presentes e, resolvendo comparar a torcida do Goiás à do Atlético, saiu-se com a frase “eu não acredito que a torcida do Goiás seja a torcida do Atlético”. Os atleticanos, vilanovenses e cronistas devem ter ficado se perguntando: por que falar do Atlético em um momento onde o Goiás disputa o vice-campeonato da Série A e o Atlético caminha para a Série C?

A resposta não é tão difícil assim: o Atlético incomoda e muito o time verde do Alto da Serrinha. E quem ganha com isso é a rivalidade do futebol goiano, ingrediente esse que faz nosso futebol tão interessante. Os times de futebol, assim como as pessoas, assumem com o tempo determinadas características e estereótipos. O Corinthians é tido como “time do povão”, da periferia; o Fluminense e o São Paulo, times com cara de aristocracia; o Botafogo, o da superstição; o Vila Nova, paixão popular; o Atlético Goianiense é tradição e o Grêmio inspira luta e determinação, entre outros. Em nosso Estado, o Goiás assume para si a postura de time arrogante, de empáfia e soberba. Os dirigentes do Goiás literalmente vestem essa camisa e contribuem com essa imagem, a de time mais rico e “bom de bastidores” (eufemismo para o fato de ganhar jogos e campeonatos fora das quatro linhas).

Quando o dirigente do Goiás se preocupa em menosprezar a torcida do Atlético ele está na verdade demonstrando o quão difícil é ao “Gigante do Centro-Oeste” assimilar as nem tão recentes derrotas e o espaço que perdeu para o Dragão (mesmo já tendo reconquistado tal espaço). Atlético que, nos últimos 30 anos, foi o único time goiano que conseguiu ficar acima do Goiás em nível nacional, mesmo que por um breve tempo — 2010 a 2012 —na Série A, enquanto o Goiás era rebaixado e amargava dois anos de Série B. O Goiás, pela primeira vez em sua história, teve de ouvir o grito de “Ão, ão, ao, Segunda Divisão!” que tanto sua torcida já havia cantado para seus rivais locais.

Mas qual o problema disso, dr. João Bosco? Times uma hora estão por cima, outra hora por baixo. “Mas não o Goiás”, diria nosso nobre dirigente esmeraldino. E reside aí o problema dos nossos amigos “mochés”, como carinhosamente os chamamos nós atleticanos e também os vilanovenses. Para o Goiás, a história do futebol goiano se inicia quando eles começam a disputar a Primeira Divisão do futebol nacional. O clube esmeraldino tem de se convencer que sua torcida sempre foi a maior e que sempre tiveram mais títulos. Ledo engano. Até os anos 1970 o Goiás era o menor time da capital, sua torcida era conhecida como a torcida dos 33 torcedores, era o time com menos títulos entre seus rivais locais e assistia como espectador o clássico das massas entre Atlético e Vila Nova. E qual o problema em assumirem que vieram de baixo, que fizeram boas administrações e chegaram ao topo? Não. Isso não combina com o Goiás.

Já nós, atleticanos, temos o maior orgulho de dizer que somos o time mais tradicional do Estado, primeiros campeões goianos em 1944, primeiro time goiano a ganhar de um time do eixo Rio-São Paulo (1 a 0 sobre o São Paulo, em 1958, no Estádio Olímpico), primeiros a ganhar um título nacional (Torneio da Integração Nacional, em cima da Ponte Preta, em 1971, em campeonato que o próprio Goiás participou). Não temos memória curta ao recordarmos que um dos jogadores mais lembrados pelo Goiás, pelo histórico empate por 4 a 4 com o Santos de Pelé foi Paghetti, campeão goiano com o Dragão em 1970 e depois emprestado para o Goiás jogar o Nacional.

Lembramos com orgulho que saímos das cinzas. De 1972 a 2006 ganhamos apenas três títulos, ficamos sem estádio e ressurgimos para sermos campeões de público do Goianão em 2006, para dividir estádio e sermos até maioria em jogos contra São Paulo, Palmeiras e Flamengo no Serra Dourada.  A torcida do Goiás realmente não é a do Atlético, dr. João. Temos orgulho de não termos arrastões, brigas e gangues na torcida do Dragão; não ilustramos os noticiários do meio-dia, ninguém vai a um jogo do Atlético com medo de levar seus avós e filhos, somos uma torcida de velhos e crianças e temos muito orgulho disso. Disputando a Série C já levamos 13 mil pessoas contra o Campinense (PB) em 2008 e me arrisco a dizer que se estivéssemos disputando o vice-campeonato da série A como vocês, e com 5 mil ingressos da nota fiscal, provavelmente colocaríamos mais de 7 mil  torcedores no estádio.

Caro João Bosco, o Goiás é grande. Não se preocupe, da sua fundação até a década de 1970 foi pequeno, mas se tornou grande, não precisa renegar a história de vocês. Se vocês ficaram mais de 30 anos na Série A e até hoje têm de ouvir que a torcida mais apaixonada do Estado é a do Vila Nova, nós não temos culpa. Se puderam ser ultrapassados recentemente pelo Atlético, o mais tradicional do Estado, mas um time que parecia morto, não temos culpa.  Cada um tem seu valor e, quando torcer pelo Goiás não era  moda de TV e quase não se tinha notícia do time dos 33, o Dragão já lotava estádios, dava muitas alegrias e já tinha muitos títulos. Portanto, nunca se esqueça de que é preciso respeitar as cores, aqui temos muita história.

Paulo Winicius Teixeira de Paula é atleticano e mestrando em História (UFG). 
E-mail: paulowinicius@gmail.com

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