terça-feira, 6 de outubro de 2015

Opinião do torcedor: Os 500 jogos do goleiro Márcio

MÁRCIO -  A MURALHA ATLETICANA E SEUS 500 JOGOS PELO DRAGÃO

O goleiro Márcio Luiz atingiu no dia 18 de setembro de 2015 a incrível marca de 500 jogos com a camisa do Atlético Goianiense: 34 gols marcados, 5 títulos conquistados e 2 acessos em campeonatos nacionais. Tais marcas o colocam ao lado dos melhores goleiros que já passaram pelo Dragão, como Paulista (décadas de 1940 e 50), Campeão (anos 60), Pedro Bala (anos 70), Leonetti (anos 80) e Márcio Defendi (anos 90). Márcio está entre os dez maiores goleiros artilheiros do mundo e é com certeza o arqueiro mais completo que já passou pelo futebol goiano, e tudo isso com a camisa do Atlético.

Mas, bastaria jogar muitas partidas e fazer gols para se tornar o maior herói da torcida atleticana do início desse século 21? Com certeza não. Heróis se fazem de grandes feitos, batalhas épicas, identidade com a torcida e com o clube, elementos que nunca faltaram à Muralha Atleticana.
Devemos pensar então porque Marcio é tão idolatrado pela torcida. Bom, como atleticano aponto algumas razões.

Em primeiro lugar, por seus feitos memoráveis, que jamais sairão da cabeça do torcedor atleticano. Márcio fez gols em todas as competições que disputou pelo Atlético: Campeonatos Brasileiros das séries A, B e C, Copa do Brasil, Copa Sul-americana e Campeonato Goiano, além de defender pênalti em final de campeonato. O goleiro artilheiro deixou sua marca contra grandes equipes do futebol, fazendo gols contra São Paulo, Palmeiras, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco e Universidade Católica do Chile, entre outros. Sempre demonstrou ser jogador de decisão. Em finais e jogos eliminatórios já fez de tudo, operou milagres, fez gols, defendeu pênalti e chorou com a torcida atleticana.

Em 2008, num jogo eliminatório pela Copa do Brasil, em pleno Estádio Olímpico em Porto Alegre, Márcio fez um golaço de falta, a disputa foi para os pênaltis, ele fez mais um gol, defendeu uma cobrança e o Atlético eliminou o Grêmio, calando milhares de tricolores gaúchos que ali estavam.  A torcida atleticana em Goiânia, que via o jogo pela TV aberta, foi ao êxtase. Em plena quarta-feira, houve um carnaval fora de época, torcedores fechando a rua em frente o tradicional bar de atleticanos, o Betos Bar.

Entre as façanhas do goleiro, não escapa à memória atleticana, no ano de 2010, o dia em que Márcio venceu outro mito do futebol, o goleiro Marcos, do Palmeiras, na Copa do Brasil. Com o Serra Dourada lotado e uma maioria de torcedores atleticanos, o Dragão venceu no tempo normal e a disputa foi para a cobrança de penalidades. Márcio defendeu três cobranças e fez um gol de pênalti. Tal feito garantiu o Atlético nas semifinais da competição figurando entre os quatro melhores times do país.

A última proeza sacramentada nas mentes e corações dos torcedores ocorreu em 2014, na final do Campeonato Goiano. Márcio defendeu um penâlti e se destacou como herói do titulo, ao lado do zagueiro Lino e do atacante Juninho, o que lhe garantiu quase toda capa do jornal do dia seguinte, símbolo de uma conquista talhada com sangue, suor e lágrimas, definida aos 48 minutos do segundo tempo.

A mística de Márcio como mito não para por aí. Para o torcedor, ídolo que é ídolo não pode “tremer” na hora dos clássicos, pelo contrário, tem que crescer e “maltratar”, no bom sentido, os principais adversários. É aqui que entra boa parte da mística de Márcio com a torcida. O camisa 1 cresce, e muito, nos clássicos. O Vila Nova é um caso a parte, é a equipe que mais tomou gols de Márcio, que aliás fez seu primeiro gol na carreira contra o Vila, em novembro de 2007, de falta, vitória do Dragão por 3 a 2. No total são 5 gols, 4 de falta e 1 de penâlti. Como se não bastasse fazer gols no Vila, o goleiro artilheiro também já pegou pênalti no clássico, em 2013, defendeu a cobrança do jogador Henrique Dias da equipe colorada e garantiu a vitória por 1 a 0.

Para o torcedor do Goiás o pesadelo não é menor. Márcio em 2014 não só fez gol nos esmeraldinos como defendeu pênalti no último jogo da final. Márcio simplesmente encerrou a carreira de Araújo, o maior artilheiro da história do Goiás. Caso fizesse o gol do tricampeonato, em uma campanha até então invicta, Araújo fecharia com chave de ouro sua última passagem pelo time da Serrinha. No entanto, no meio do caminho havia Márcio, que defendeu a cobrança do artilheiro. A última lembrança dos esmeraldinos sobre Araújo ficou nas mãos do nosso goleiro. Ao final, Márcio comemorou mais um título sobre o Goiás, o terceiro de sua carreira.

Outro fator é a identidade de Márcio com o time e a torcida. Vivemos a era do “futebol moderno”, ou pior, “futebol mercadoria”, tempos de times-empresa, de verão e aluguel, em que as equipes mudam de bairro, de cidade e até de nome e não criam identidade nenhuma com torcida ou jogador, em que dirigentes se preocupam mais em “fazer negócio” do que em dar alegrias e títulos para a torcida. Nessa conjuntura, na qual jogadores não passam mais que duas temporadas em uma equipe e beijam um escudo diferente a cada seis meses, Márcio demonstrou ser um ponto fora da curva. O paredão atleticano nunca foi mal agradecido, diferentemente de alguns outros que vestiram o manto rubro negro, tal qual o volante Róbston, que só teve glórias em sua carreira com a camisa do Atlético, mas renega o clube que o projetou e a torcida que lhe prestou homenagens. Ao contrário, a muralha rubro-negra se destaca pelas manifestações de amor e respeito pelo Dragão e a torcida atleticana, o que lhe garante lugar ao lado de ídolos atleticanos como Anaílson e Lindomar.

Não me lembro de ouvir o goleiro falar mal da torcida atleticana. Ao contrário de alguns dirigentes que tem a mania de maldizer a torcida - enquanto endividam o clube, destroem seu estádio e montam péssimas equipes - Márcio sempre demonstrou orgulho de jogar em um time tão tradicional quanto o Dragão, ele entende que a torcida atleticana foi massacrada por décadas com péssimas gestões no clube, jejuns de títulos, afastamento de seu bairro de origem, Campinas, e que a torcida está se reerguendo e voltando a crescer, junto com o Atlético.

 Exemplar desse carinho e identidade entre Márcio e a torcida atleticana foi vê-lo em 2007, logo após a conquista do título goiano contra o Goiás, em cima de um carro de som, na festa pós jogo no Estádio Antonio Accioly, nos bons tempos em que os jogadores iam comemorar com a torcida após os títulos. Como um garoto, Márcio dançava, pulava e fazia até coreografia de axé cantando com a torcida a gostosa provocação sobre o rival, engrossando o coro do “Pra frente, Pra Tras na (...) do Goiás”.

A identificação de Márcio com o Atlético Goianiense fez com que se destacasse como jogador diferenciado em um clube diferenciado. Somente um time com a tradição do Atlético Goianiense pode ter jogadores que alcançam a marca de 500 jogos. Times sem tradição dificilmente alcançarão tais marcas. Márcio se junta agora ao atacante Epitácio, que fez 535 jogos com a camisa do Dragão, entre a década de 40 e início de 60.

Por fim, aos gols, defesas, títulos e identidade com o clube, se junta o fato de Márcio ser um líder, de opiniões firmes, fazendo dele o capitão do time. Foi o primeiro goleiro em Goiás a fazer e jogar com uma camisa personalizada contra o racismo. Ciente de sua condição de formador de opinião e de que jogadores de futebol devem ter posição sobre questões que afetam a todos nós, fez questão de se colocar contra o racismo que vinha, e vem, assolando o futebol e toda sociedade. Ao se posicionar politicamente contra práticas racistas em campos de futebol, Márcio, um goleiro negro (como Pedro Bala, herói do campeonato goiano de 1970 e do Torneio da Integração Nacional em 1971), reafirma a tradição democrática e popular do Dragão da Campininha de ser um time com a cara de povo. Aliás, não é à toa que a expressão “time do povo” pode ser encontrada nas manchetes dos jornais à época do título goiano de 1964. Era assim que o Atlético era chamado, em contraposição ao time oficial do Governo, o Goiânia, e a outro time da capital, bem pequeno à época, de caráter bem elitista, o Goiás.
Márcio com certeza marca seu nome na trajetória do futebol brasileiro e goiano com a camisa do Dragão. Deixa em destaque sua marca para ser descrita nos livros sobre os principais jogadores e suas façanhas realizadas com camisa do Atlético, junto a Ari, Tarzan, Fabão, Plínio e Osvaldinho (nas décadas de 40 e 50) Jair, Luizinho, Paguetti, Raimundinho, Zé Geraldo e Gilberto (nas décadas de 60 e 70), Baltazar (até hoje o maior artilheiro dos campeonatos goianos, com a marca de 31 gols, no campeonato de 1978); Bill, Valdeir, Julio Cesar, Fernando Almeida e Marçal (nos anos 80); Oscar, Babau, Romerito, Lindomar, Claudinho, Rélber (nos anos 90); Rubsen (artilheiro do Goianão em 2002); e claro junto à locomotiva rubro negra que Márcio compôs ao lado de Anailson, Róbston, Wesley, Pituca, Juninho e Marcão a partir de 2006. A Muralha Atleticana, Márcio Luiz, constará entre os nomes que fizeram a estrela atleticana brilhar mais alto.

Márcio, saiba que a Campininha, o Accioly, o Atlético Clube Goianiense, são a sua casa e que milhares de torcedores tem você imortalizado na memória. Por tantas alegrias que nos proporcionou você fez com que acreditássemos que era possível e necessário fazer jus à grandeza e tradição do Dragão Goiano. Por isso, quando pendurar as luvas, torcemos para que seja no Atlético e nunca em um de nossos rivais. Seja como for, tenha certeza de que em nossas lembranças sempre ecoará o grito de “PQP... é o melhor goleiro do Brasil. MÁRCIO!!!”.

Autor: Paulo Winícius Teixeira de Paula – Historiador, Professor e Mestre em História pela UFG - Universidade Federal de Goiás. Email: paulowinicius@gmail.com